terça-feira, 3 de novembro de 2015

Prontas para resistir com lucidez e ousadia

     Fico feliz pela coincidência da chegada em breve às livrarias de “A arte de ser ousada, uma homenagem a Carmen da Silva (1919-1985)”, pela Vieira & Lent Casa Editorial –, com o momento em que se evidencia a abordagem de temas da agenda feminista. Parabéns ao MEC pela inclusão do tema da violência contra a mulher na redação do ENEM. O que é de se aplaudir, que se aplauda, sem sectarismos.

     Muitas das jovens hoje engajadas no movimento sequer ouviram falar da escritora Carmen da Silva, com quem tive o prazer de conviver nos últimos anos de sua participação nas lutas dos anos 1970/80. O pensamento de Carmen moveu-me a escrever, não só sobre ela, como também sobre o movimento que fizemos naqueles  anos. É importante ligar o presente a um tempo que começa até bem antes dos citados anos, como tentei registrar em meu texto, uma espécie de documentário de nossa trajetória na luta contra a discriminação em razão de sexo. É importante iluminar o lema deixado por Carmen: 

chega de ser barco à deriva, seja a protagonista de sua vida”. 

   A isto me dediquei a fazer, esperando que venha alcançar o objetivo.
        
      Tivemos um outubro mais que rosa. Digamos, um outubro de um rosa matizado de tons mais fortes disponíveis em nossa paleta de artistas da ousadia na luta por nossos direitos. O ano vai terminando com notória mobilização de mulheres contra as crueldades do machismo. Há em curso uma perigosa investida conservadora, obstinada em revogar importantes conquistas referentes às igualdades de cidadania, inclusive nas relações de família, aos direitos reprodutivos e as medidas de saúde pública, tais como como a garantia de atendimento na rede pública às mulheres nas condições do aborto não vedado no Código Penal de 1940. Os inimigos são, sim, perigosos porque têm representação nas casas legislativas, notadamente, no Congresso Nacional.

      Nossas reivindicações foram, em parte, acolhidas na Constituinte (1986-1988). Hoje, as forças conservadoras querem esvaziar a Constituição de 1988, apresentando projetos como o PL nº 6.583/2103, que dispõe sobre o “Estatuto da Família”, definindo-a como “núcleo social formado entre um homem e uma mulher”, quando a Constituição, ao tratar da família, deixa aberto o leque democrático de sua composição, em nome das verdades da vida, das francas relações entre as pessoas, admitidas estas em suas diversidades, inclusive a de orientação sexual.
  
      O mesmo laço rosa da campanha pela conscientização sobre o câncer de mama deve nos unir em defesa de nossos direitos. Evitamos a morte pelo câncer de mama, quando nos submetemos regularmente à mamografia e à ultrassonografia, exames que o detectam precocemente. Já se sabe que o câncer descoberto e tratado bem de início pode equivaler à cura. Todas nós conhecemos mulheres efetivamente curadas. Ora, também podemos e devemos evitar a morte como cidadãs, quando nos tornamos conscientes dos absurdos da cultura machista e nos movimentamos para desconstruí-la, em favor de outras formas de convivência social, amorosa, familiar e profissional, em que sejamos respeitadas em nossa integridade, em nossas especificidades femininas. Parabéns às organizadoras dos atos públicos de outubro: devemos, sim, ocupar as ruas e as redes sociais em protestos contra a guinada conservadora que aí está. Não podemos ser coniventes com as barbaridades propostas por agentes políticos desmoralizados como homens públicos! A mesma garra que nos leva a lutar contra uma doença grave, deve nos mobilizar para agir contra o fundamentalismo religioso que nos despreza como seres humanos, ao querer violar o princípio constitucional do Estado laico e ditar normas (leis) para todos, segundo seus respectivos dogmas; contra o machismo: um tipo de câncer social que cresce silencioso e causa sofrimentos psicológicos, morais, físicos e, não raro a morte pelo assassinato de mulheres - atos quase sempre passíveis de enquadramento na agravante legal do femicídio ou feminicídio (quando o crime é praticado em razão de ser a vítima mulher, uma espécie de exacerbação da conduta machista). Sugiro que se dê uma olhada na situação do Rio de Janeiro retratada nas estatísticas produzidas pelo Instituto de Segurança Pública-ISP, do Governo do Estado do Rio de Janeiro, quanto aos casos noticiados, para que se tenha uma ideia da gravidade do problema.

      Novembro nos chega “azul” com a campanha pela conscientização dos homens sobre o câncer de próstata que os mata, notadamente, por conta do preconceito de se negarem a fazer o exame clínico em que o médico, pelo toque anal, pode identificar sintomas da doença. Bom seria que se aproveitasse essa campanha para esclarecer os homens sobre os efeitos trágicos do machismo, uma espécie de patologia social de fácil diagnóstico, mas de difícil tratamento, ainda sem cura prevista, responsável pela morte das relações amorosas, pela probabilidade de conversão do portador em criminoso, doença esta que se manifesta por comportamento eivado de perversidade, pela misoginia, pela homofobia, condenando o portador, não raro, à perda dos vínculos afetivos, sobretudo pela rejeição por parte dos filhos e dos familiares, conduzindo-o à solidão do cárcere.   

       Temos um caminho percorrido na luta para eliminar o machismo nas relações familiares e sociais. E há uma continuidade nessa ação a ser reconhecida e valorizada por todos e todas que sonham com uma sociedade humanista. Enriquece-se o conhecimento sobre os temas de gênero, aprimoram-se as linguagens, as redes de comunicação. Tudo isso deve ser aproveitado para destacar o fio condutor que nos une às primeiras e legendárias feministas, como a escritora inglesa do século XVIII, Mary Wollstonecraft, defensora do direito das mulheres à educação formal. Na história mundial e nacional, não faltam exemplos de mulheres que combinaram sua lucidez com a ousadia de denunciar as feridas causadas pelo machismo. Carmen da Silva foi uma delas. Sigamos as pistas que nos deixaram, #sejamosousadas. 

domingo, 9 de novembro de 2014

Marina Tsvetáieva, para quem não conhece

Descobrir a escrita de Marina Tsvetáieva (1892-1941) foi uma das surpresas literárias mais importantes de minha vida. Todo o trágico que emana de sua escrita tocou-me intensamente. Ler Marina foi uma rica experiência de vida. Sua leitura me fortaleceu, me ensinou a viver de um modo mais completo. Conheci-a pela obra de Tzvetan Todorov - "Vivendo sob o Fogo" (Martins Editora Livraria Ltda, São Paulo, 2008). 

De Marina: 

"Entre o sexo e o cérebro, situados nas extremidades de nós mesmos, há o centro, a alma, onde tudo se cruza, se une e se funde e de onde tudo sai transfigurado e transfigurador."

"...não há mundo pequeno: o que há são olhos pequenos..."

"Escrevo para compreender - é tudo que posso dizer sobre meu ofício."

"O que importa para o poeta não é descobrir o lugar mais distante, remoto. Mas o mais verdadeiro". 

"Todos os meus "não quero" foram espirituais; não tive "não quero"  físicos - certamente por meu corpo ser extremamente democrático, ele se acostumou antes de mim... " 

"Minha única alegria é a poesia. Escrevo como se bebe - não vinho, mas água. E nessa hora sou feliz, segura de mim. "

"Oh, meu Deus! Como explicar que poeta - é antes de tudo uma ESTRUTURA DE ALMA!" 

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Aborto: descriminalizar é preciso!

Não nos deixemos silenciar pela campanha indigna que confunde a justa defesa da descriminalização do aborto com o incentivo à prática do aborto. Mesmo nos tempos áureos do movimento feminista do qual participei, jamais insuflamos a prática do aborto. Sempre defendemos (e continuarei a defender) o direito das mulheres sobre seu destino, seu corpo, sua saúde física, psicológica e mental - um direito fundamental sobre a vida e sobre as vidas que à mulher é dado a gerar. Este direito, evidentemente, pressupõe o exercício da maternidade responsável ao qual se chega pela orientação quanto ao uso dos métodos contraceptivos, ou seja, o acesso à educação, à informação e aos serviços de saúde. Como sempre dissemos, a gravidez não pode ser vista como uma fatalidade biológica. Gerar filhos pressupõe imensa responsabilidade. Entretanto, engravidar não é só um ato de razão. Há situações em que a gravidez se instala no corpo da mulher, sem que para isso a sua responsabilidade pessoal tenha tido espaço para se exercer. Exemplo dramático é a gravidez fruto do estupro, situação para a qual a lei já admite o aborto. Porém, mesmo nos casos em que a lei já admite a prática, nem sempre o atendimento na rede pública é de livre acesso às mulheres. Recentemente, o governo revogou a Portaria Ministerial que regulamentava a lei que estabelece o atendimento às mulheres na rede pública de saúde em casos de aborto. Atendeu-se à pressão das igrejas, pois se avizinhava o período de campanha eleitoral... Lamentável! 

Até quando o Estado se manterá omisso quanto ao direito à saúde integral, à educação sobre concepção, contracepção e aborto, tocante a todas as mulheres? Até quando o Estado cederá à pressão das igrejas, como se a saúde das mulheres não fosse uma questão de Estado? É preciso tirar o aborto do rol dos crimes e cabe ao Congresso Nacional decidir sobre isto. Basta isso: tirar do rol dos crimes, o que está provado em experiências em outros países, não equivale a incentivo à tal prática. Mulher alguma busca o aborto por razões frívolas. E nós, mulheres conscientes, devemos lutar para que jamais se adote o aborto como método contraceptivo. Que as pessoas, independentemente de suas crenças, reflitam sobre a responsabilidade de ser mãe e sobre os incontáveis danos à vida e à saúde das mulheres em razão do aborto clandestino.