quarta-feira, 27 de abril de 2011

Consciência Feminista


Ontem, em nosso habitual café ao cair da tarde, comuniquei à minha amiga Eliane Sondermann que, depois de um agradável encontro com as feministas Danda Prado e Zezé Lima, eu estava inaugurando um blog denominado “Consciência Feminista”, com o objetivo de criar uma espécie de observatório de viés feminista sobre fatos, noticias, literatura, arte, cultura, etc. Eliane questionou a eficácia do meu blog, indagando: mas já não está tudo superado? Enfaticamente, respondi: não! Ao que ela observou: então não sei bem o que é feminismo. A nossa conversa só me veio a confirmar a necessidade de manter acesa a fogueira de questionamentos que nos anos 70/80 levou às ruas mulheres brasileiras, como anteriormente já levara européias e americanas.
No Brasil, em muitos aspectos da cidadania, a situação mudou para melhor. Afinal, seria estranho que, por exemplo, permanecesse em vigor a chefia do homem na sociedade conjugal, depois de longos anos de atuação quase diária das advogadas feministas pela revogação da discriminação prevista no Código Civil de 1916. Deste trabalho na seara jurídica e de tudo mais que se fez no movimento feminista nos anos 70/80 resultou a declaração de igualdade na Constituição de 1988, o que veio a ensejar a revisão do Código Civil (mesmo assim somente em 2002) e de demais normas de caráter discriminatório. Conseguimos inserir na Constituição de 1988 (§ 8º, do art. 226) que o Estado deve garantir “assistência à família na pessoa de cada um dos membros que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações.” Com base neste princípio constitucional foi possível (e só em 2006!) aprovar a Lei Maria da Penha, que cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Note-se que não é desprezível a posição de juristas e magistrados que hoje insistem na revogação desta lei, sob o argumento de que fere o princípio constitucional da igualdade.
Aí a gente olha em volta, observa a vida da geração de mulheres que nos sucede, lê o jornal, vê a TV e indaga: quem disse que está tudo resolvido?  Quem disse que a conquista de igualdades jurídicas equivale a dar por superados tantos dramas que marcam o cotidiano das mulheres? Como é possível dispensar o feminismo e tê-lo como descabida insistência de meia dúzia de eternas insatisfeitas, quando persistem notícias de crimes horrendos praticados por homens contra mulheres?  
O olhar feminista deste blog é exatamente o que pretende captar o que há  por trás dos palcos da igualdade jurídica. O que leva, por exemplo, o maníaco de Realengo a escolher como alvo a cabeça e o coração principalmente das meninas? O que leva uma mulher de baixa renda, mãe de dez crianças, a jogar no lixo a décima primeira - uma menina  -  indesejada por razões que obviamente transcendem os limites da pura insanidade? O ato teria sido cometido se o aborto não fosse considerado um delito e pudesse ser praticado livremente em rede de saúde pública, com assistência médica e psicológica?  
Como é possível ter o feminismo como coisa do passado, quando vemos mulheres casadas e mães de filhos ainda prioritariamente incumbidas dos comandos e afazeres domésticos? E as empregadas domésticas que não têm os mesmos direitos que as demais trabalhadoras? E as tais creches públicas previstas na Constituição para todas as crianças de zero a seis anos? Alguém sabe apontar onde estão? E as denúncias de inexistência de leitos para os partos nas redes públicas de saúde de tantas cidades em todo o país?
Fica-me a impressão de que os silicones que moldam a atual silhueta da condição da mulher escondem, sim, muitos problemas. Eis o que pretendo tentar entender, escrevendo – o que está ao meu alcance fazer na atual etapa de minha vida. Desejo compartilhar na internet as minhas inquietações. Quem sabe, chegar às mulheres que navegam sob a ditadura do corpo esbelto, às tantas mulheres que sobrevivem aos novos protocolos da vida pública, das relações conjugais e das experiências maternais, escondendo na alma a mesma indignação que moveu as ações e a escrita da inglesa Mary Wollstonecraft (1759-1797) que, ao publicar “A Vindication of the Rights of Woman”, lançou ao mundo os fundamentos do feminismo que ainda hoje move a consciência de mulheres que não se contentam com liberdades parciais e tantas vezes maquiadas.   

6 comentários:

  1. Mãe amada,
    que ótima iniciativa! Compartilho de muitas dessas inquietações. Que o blog seja o lugar da sua expressão e do diálogo com as mulheres que olham para esses e outros temas com carinho e interesse.

    Acho que você tem experiência e, principalmente, sensibilidade para lidar com os temas da mulher, não só pelo viés feminista, mas também pelo viés feminino.

    Adorei o texto de abertura e certamente serei uma seguidora e divulgadora convicta do seu blog!

    Parabéns a nova blogueira!

    beijos carinhosos,
    Tati.

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  2. Obrigada, querida! Tudo pelas mulheres!!!

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  3. Que legal! Serei leitora assídua. Beijos

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  4. Sim, vejo muitas pessoas dizerem que "a situação das mulheres está ótima", "feministas são desnecessárias" mas acho ainda que temos muitíssima coisa para mudar. E uma boa maneira de começar essa mudança é justamente com o livre questionamento sobre a posição da mulher na mídia e na cultura de forma geral.
    Vou acompanhar seu blog o máximo que puder, parabéns pela iniciativa!

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  5. Olá, concordo com sua opinião conforme esta postagem, acabei de desenvolver um trabalho entitulado: "Carmen da Silva, uma rio-grandina precursora do feminismo: por uma releitura de suas escritas" o trabalho aborda exatamente estas questões que apontas aqui dentre outras a respeito da escrita da autora. o trabalho foi desenvolvido a partir de: levantamento feito em artigos, obras ficcionais e autobiográficas – pretende mostrar a importância da autora para mais de uma geração de mulheres (1960-70), e sua atualidade, evidenciando seu engajamento nas causas sociais e militância feminista, retomando através das obras e ideais da autora, buscando torná-la reconhecida e lida na atualidade, contextualizando sua escrita neste ano singular em que o projeto de pesquisa completa dez anos e que, pela primeira vez, a Presidência da República é ocupada por uma mulher.

    Em breve pretendo publicar este artigo, que ao meu ver ficou muito interessante e pertinente o conteúdo conforme apontas aqui. Fiz apresentação do mesmo na MPU (Mostra de Produçaõ Universitária da FURG) na semana passada e no dia 09/11 irei apresentar na UFV o mesmo trabalho. É de extrema importância reviver o ideal da autora, ler ontém para entendermos hoje, e nos questionarmos criticamente, até onde o ideal feminista foi atingido (território, consciencia humana,...), o que ainda precisa mudar e quais as novas formas de machismo, exploração da mulher tem recebido na atualidade.

    Bom há muitas abordagens a se fazer tratando-se deste assunto.

    Carmen despertou muito meu interesse para diversos ambitos do conhecimento através de suas obras.

    Conforme desenvolvo no trabalho citado, recomendo a leitura da obra "Sangue sem dono" da autora, pois nesta ela representa a mulher como a protagonista de sua vida, a exemplo de seu 1º artigo na revista Claudia, (visão esta diferente de como um homem representa). Da mesma forma fica explicito o engajamento da autora através de personagem da obra ficcional, engajamento que a autora conservou até o fim da sua vida. Acredito que para um estudo do feminismo e da representação feminina feita por Carmen, deve-se imprescindivelmente ler esta obra. Igualmente a Coletânea "O melhor de Carmen da Silva" traz a síntese da melhor escrita da autora. Todos seus livros encontram-se facilmente na estante virtual.

    Fica aqui minha singela opinião.

    Abraços

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